Nos últimos dias, a Premier League foi abalada pela decisão da comissão independente que confirmou a decisão de considerar o Manchester City culpado de 114 das 115 violações das regras financeiras de que era acusado, cometidas entre 2009/10 e 2017/18. O clube, que pertence ao Xeque Mansour bin Zayed Al Nahyan, de Abu Dhabi (figura central neste processo), é presidido por Khaldoon Al Mubarak e foi treinado até ao verão por Pep Guardiola, nega as acusações e anunciou publicamente que vai recorrer da decisão.
O caso nasceu em 2018, quando o Der Spiegel e o hacker português Rui Pinto publicaram emails internos do clube. A Premier League investigou o caso durante quatro anos, na sequência de um processo que já tinha corrido termos na UEFA e, em 2023, acusou formalmente o City. A sanção ainda não foi oficialmente decidida.
Afinal, do que é acusado o Manchester City?
O núcleo do caso está nas contas do clube. A comissão considerou provado que o City apresentou informação financeira incorreta sobre receitas, patrocínios, empresas relacionadas com o proprietário e custos com jogadores e treinadores.
A principal questão diz respeito aos patrocínios de empresas de Abu Dhabi. Segundo a decisão, uma parte muito significativa desses valores não terá sido efetivamente paga pelos patrocinadores, mas pelo Abu Dhabi United Group, ligado ao proprietário do clube, inflacionando, alegadamente, as receitas do clube e permitindo uma maior margem nas regras de fair play financeiro.
No total, o City declarou cerca de 949,9 milhões de libras de receitas provenientes dessas empresas. A comissão concluiu que apenas 119,3 milhões terão sido efetivamente suportados diretamente pelos patrocinadores, considerando que os restantes 830,7 milhões terão vindo do grupo do próprio dono.
E os pagamentos a jogadores e treinadores?
Também aqui foram consideradas provadas irregularidades e o exemplo mais conhecido é o de Roberto Mancini. Segundo emails divulgados em 2018, o treinador celebrou, no mesmo dia em que chegou ao City, um segundo contrato com o Al Jazira, de Abu Dhabi, no valor de 1,75 milhões de libras por ano.
Porque existem acusações de falta de cooperação?
A Premier League considerou também que o clube dificultou a investigação, atrasou a entrega de documentos e tentou limitar o acesso a informação relevante. A comissão foi particularmente crítica neste ponto e concluiu que algumas testemunhas apresentadas pelo clube fizeram declarações que sabiam não corresponder à realidade.
Quem decidiu e que penas podem ser aplicadas?
O processo foi apreciado por uma comissão independente, constituída por especialistas jurídicos e financeiros. O City já recorreu e o recurso será apreciado por uma nova comissão independente e, dentro do sistema da Premier League, a decisão será definitiva.
Quanto a possíveis penas, a margem é ampla. O City pode ser alvo de multas milionárias, perda substancial de pontos ou outras sanções desportivas. Em teoria, até uma sanção com consequências sobre a expulsão do clube da Premier League é possível.
O precedente mais citado é o Everton, que perdeu inicialmente dez pontos por ultrapassar os limites financeiros em 19,5 milhões de libras, sanção depois reduzida para seis, comparação essa que acaba por ser limitada, nunca existiu uma infração desta dimensão na história da Premier League.
O City pode perder os títulos que ganhou durante este período?
É possível, mas não automático. As regras não dizem expressamente se uma infração financeira implica a perda dos troféus conquistados nesse período.
Entre 2009/10 e 2017/18, o City venceu três campeonatos, três Taças da Liga, uma Taça de Inglaterra e duas Supertaças. Mesmo que algum título fosse retirado, não existe uma regra que determine automaticamente a sua entrega ao segundo classificado.
E agora, o que se segue?
No fundo, este caso coloca-nos uma questão importante: até que ponto um resultado desportivo pode ser separado das condições (financeiras) em que foi alcançado? O futebol vive da incerteza do jogo, mas também da ideia de que todos partem sujeitos às mesmas regras. Se essa igualdade falha fora de campo, torna-se inevitável perguntar quanto dessa diferença acaba por entrar também dentro dele. O passado não muda, mas passa a ser visto sob uma nova luz, acompanhado por um incómodo “e se?”.